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domingo, 13 de junho de 2010

TESTE PARA TDAH




Teste para déficit de atenção aplicado na Califórnia
Estou diante de um console de plástico cinza que lembra uma cabine de piloto de avião. Toda vez que me mexo, um pequeno refletor em uma tiara improvisada na minha testa alerta um dispositivo de monitoramento infravermelho que aponta para mim de cima de um monitor de computador. Vendo a tela, eu devo clicar em um mouse toda vez que vejo uma estrela com cinco ou oito pontas, mas não estrelas com apenas quatro pontas. É uma tarefa realmente simples e tenho diploma de graduação. Então por que sempre erro?

Na metade da sessão, com duração de 20 minutos, me vejo clicando em várias estrelas de quatro pontas, enquanto suspiro, xingo e bato o pé a cada novo erro, enviando informações ainda mais desfavoráveis ao aparelho através de faixas de monitoramento ligadas às minhas pernas.

Dr. Martin H. Teicher, psiquiatra de Harvad e inventor do teste, tem uma explicação para minha situação difícil.
“Temos algumas evidências objetivas de falha na atenção”, ele disse – em outras palavras, um caso “muito sutil” de transtorno do déficit de atenção com hiperatividade, ou TDAH (de fato, já tinha recebido esse diagnóstico três anos antes). Eu não apenas cliquei demais onde não deveria, ou não cliquei onde deveria, mas pequenas mudanças no movimento da minha cabeça, monitorado pelo detector de movimento do aparelho, sugeriam que eu tendia a mudar estados de atenção, de focada na tarefa a distraída, passando por impulsiva.

A invenção de Teicher, o Sistema Quociente TDAH, é apenas um dos vários esforços contínuos para encontrar um indicador biológico – evidências biológicas nítidas – para este transtorno tão elusivo.

A maioria dos pesquisadores considera o TDAH um déficit genuinamente neurológico que, se não for tratado, pode arruinar não apenas os boletins escolares, mas também vidas. No entanto, a busca por evidências objetivas ganhou uma nova urgência nos últimos anos.

Superdiagnóstico
Muitos críticos dizem que o transtorno está sendo descontroladamente superdiagnosticado por médicos que empurram medicamentos controlados em associação com a indústria farmacêutica, estimulados por uma cultura de pais extremamente ansiosos e educadores complacentes.

Esses críticos afirmam que o tratamento padrão – medicamentos estimulantes como a ritalina – trazem um alto risco de efeitos colaterais e abuso em crianças cujos problemas de atenção podem não ter causa biológica.

Mesmo assim, apesar dos perigos do diagnóstico falho, a forma mais comum de detectar o distúrbio não tem relação direta com a biologia. Em vez disso, os pacientes – junto com seus pais e professores, no caso das crianças – são solicitados a responder um questionário sobre sintomas dos quais a maioria dos mortais acaba sofrendo cedo ou tarde. Você (ou seu filho) muitas vezes comete erros bobos? Você muitas vezes não ouve quando falam com você diretamente? Você muitas vezes não acompanha instruções que lhe são dadas?

Este método, similar à forma como os médicos diagnosticam doenças mentais, é tão subjetivo que as respostas, e os diagnósticos, podem depender do quanto um paciente, um pai ou professor está se sentindo angustiado em determinado dia. Além disso, pais e professores, e até pai e mãe, podem discordar, obrigando o médico a escolher em quem acreditar.

Teste
Tudo isso explica por que um teste objetivo se tornou o “Santo Graal” para muitos pesquisadores, disse Stephen Hinshaw, diretor do departamento de psicologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. Mesmo assim, ele e outros especialistas não estão convencidos de que algum teste desenvolvido até agora tenha se mostrado melhor do que o método predominante do questionário.

Muitos psicólogos que oferecem testes abrangentes em crianças com problemas de aprendizagem não diagnosticados incluem algumas variações do Teste de Desempenho Contínuo, uma avaliação por computador que mede o nível de distração; é similar à invenção de Teicher, mas sem o detecto de movimentos.

Enquanto isso, no sul da Califórnia, o Dr. Daniel G. Amen construiu um império comercial com sua declaração de que consegue detectar o TDAH com um scanner de cérebro usando uma tecnologia chamada Spect, para tomografia computadorizada de única emissão de fóton – uma alegação ainda não confirmada em relatórios revisados por pares e testes clínicos.

Em contraste, Teicher relatou testes da eficácia de seu teste no “Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry”. A FDA (Food and Drug Administration) aprovou as vendas do dispositivo em 2002, e várias seguradoras, incluindo Aetna e Blue Cross, agora cobrem o teste, de acordo com Carrie Mulherin, vice-presidente da BioBehavioral Diagnostics, empresa de Westford, Massachusetts, que fabrica o sistema de Teicher (e paga royalties ao pesquisador; o preço de tabela é US$ 19.500).

Até hoje, mais de 70 clínicos em 21 estados compraram ou fizeram leasing de um sistema Quociente, disse Mulherin.

Dr. M. Randall Bloch, psiquiatra de Walnut Creek que demonstrava o programa para mim, faz leasing do aparelho desde setembro, enquanto considera comprá-lo. “Acho o dispositivo ótimo”, ele disse. “Seria muito bom ter mais objetividade”.

Além do pagamento do leasing, Bloch paga à BioBehavioral Diagnostics US$ 55 para cada paciente que realiza o teste, enquanto cobra das empresas seguradoras até US$ 200. Embora afirme que não diagnostica o transtorno apenas com base na pontuação do teste, ele encontrou no sistema uma forma útil de definir o diagnóstico com pacientes ou pais de pacientes relutantes em recorrer à medicação.

O sistema Quociente também ajudou Bloch a desmotivar pacientes que alegaram ter problemas de atenção, mas que, ele suspeita, estavam simplesmente interessados em tomar estimulantes por diversão, ou na esperança de se tornarem mais produtivos.

“Dá para saber quando eles tentam brincar com o teste”, ele me disse, apontando para um gráfico colorido na minha própria avaliação indicando estados de atenção. O verde quer dizer atento, o amarelo é impulsivo, vermelho é distraído e azul é “desligado”. Muito azul pode levar à suspeita de que alguém está errando de propósito.

Eu fiz alguns verdes, vermelhos e amarelos, mas não tive nenhum azul no gráfico. “Você trabalhou duro”, disse Bloch, em tom de aprovação. “É como eu lido com isso”, murmurei.

Teicher disse que o sistema Quociente oferecia uma forma eficiente de descobrir a dose e o tipo de medicamento mais apropriado para tratar os problemas de atenção.

“Os estimulantes trabalham muito rápido”, ele explicou. “Então, depois de testarmos uma criança, podemos dar uma dose a ela e esperar 90 minutos. Se ela responder ao medicamento, seu desempenho melhorará muito. Caso contrário, podemos trazer a criança na semana seguinte e tentar uma medicação diferente. Este é um processo que normalmente leva meses ou anos”.

Tarefas tediosas
O segredo do sistema, ele disse, é o que ele suspeita que no final acabe sendo confirmado como um indicador biológico válido para TDAH: um controle instável de movimentos de cabeça e postura, particularmente enquanto se presta atenção em uma tarefa tediosa.

No último outono, os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos concederam a Teicher uma verba de US$ 1 milhão do pacote federal de estímulos para se aprofundar na busca por um teste ou indicador biológico definitivo para o transtorno. Ele planeja focar sua pesquisa em três estratégias de investigação: seu sistema Quociente, exames de ressonância magnética para compara fluxos de sangue em diferentes regiões cerebrais, e o ActiGraph, um monitor de atividade amplamente usado por pesquisadores da área médica.

James M. Swanson, psicólogo do desenvolvimento e pesquisador da atenção na Universidade da Califórnia, em Irvine, elogiou a pesquisa de Teicher, mencionando sua preocupação em relação à necessidade de um teste objetivo para detectar o transtorno. Mas ele questionou se o sistema Quociente produz diagnósticos mais confiáveis do que o questionamento obstinado do médico a pais e professores de crianças, e também se esta é uma forma apropriada de descobrir a dose certa de medicação.

“Essencialmente, é uma tarefa tola e maçante”, ele disse, referindo-se ao sistema Quociente. “Você quer medicar seu filho para que ele preste atenção a tarefas chatas e maçantes?”

Enquanto saía do escritório de Bloch com minha avaliação impressa, refleti sobre algumas questões. Quanto dessa suposta dificuldade de atenção está enraizada no meu cérebro, e quanto se origina de uma cultura que diariamente me treina para mudar bruscamente meu foco do e-mail para ligações no celular? Preciso de ritalina ou de um retiro de meditação – ou simplesmente um trabalho mais interessante, ou talvez crianças mais tranquilas?

*Katherine Ellison, jornalista da Califórnia, é autora de “Buzz: A Year of Paying Attention,” a ser publicado em outubro nos Estados Unidos.


Fonte original do texto
Pesquisadores buscam uma forma objetiva de diagnosticar transtorno de atenção
Por Katherine Ellison*, de Walnut Creek, Califórnia
The New York Times


Tradutor:
Gabriela d'Ávila

Texto da pesquisa me enviado por email pela parceira blogueira citada abaixo
Luciani Cordeiro
http://lucianicordeiro.blogspot.com/

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