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sexta-feira, 31 de agosto de 2012

A Doença do mau comportamento

"Reportagens"

Descrito em 1900, o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) chama a atenção de pais, professores e profissionais de saúde no mundo atual. Cada vez mais crianças avoadas, estabanadas e inquietas ou adolescentes agitados e desorganizados — não raro, chamados de preguiçosos, bagunceiros, desajustados, egoístas, pois esquecem o que os outros pedem, e, em muitos casos, alunos-problema — têm recebido diagnóstico de TDAH. Mas, do que estamos falando? Esse é um problema real ou foi dado nome de doença a um tipo de comportamento?

Há pesquisadores que apontam para a segunda opção (ver Radis 79), mas o psiquiatra infantil Fábio Barbirato, médico do Programa TDAH Infanto-Juvenil da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro, também professor do Instituto de Psiquiatria da UFRJ, afirma que esse é um problema de saúde importante, cujas implicações variam desde dificuldades no desempenho escolar até problemas psicológicos e sociais: atinge em média 5% de crianças e adolescentes e persiste na vida adulta em cerca de 60% dos casos. Na explicação de outro psiquiatra, Russel Barkley, professor de Psiquiatria e Neurologia da Massachussetts Medical School (EUA), é um transtorno neurobiológico com forte influência genética e, conforme classificação da OMS, transtorno psiquiátrico ou neuropsiquiátrico.

A pessoa com TDAH tem dificuldade em assistir a uma palestra ou ler um livro sem que sua cabeça “voe para bem longe”, diz Fábio. Comete erros por falta de atenção a detalhes, faz várias coisas simultaneamente, tem projetos e tarefas por terminar, a impulsividade domina seu comportamento e costuma ser impaciente, irritadiço, “pavio curto”, com alterações de humor.

São três os sintomas básicos: o primeiro enfatiza a forma predominantemente desatenta, ou seja, a pessoa pode ser mais distraída do que hiperativa; no segundo, a predominância é da hiperatividade; no terceiro, a forma do transtorno é mista. Segundo o site da Associação Brasileira do Défict de Atenção (ABDA, www.tdah.org.br), o indivíduo é inteligente, criativo e intuitivo, mas não consegue dar conta de seu potencial em função da desatenção, da impulsividade ou da hiperatividade (ou “energia nervosa”). Essas alterações, explica a literatura médica, são atribuídas a um desajuste na ação de duas substâncias que fazem a comunicação entre os neurônios, a noradrenalina e a dopamina, no córtex pré-frontal, área do cérebro que controla razão e emoção.

Trata-se, porém, de uma pretensa doença neurológica que compromete exclusivamente o comportamento e a aprendizagem, “duas áreas de extrema complexidade em suas manifestações e cuja avaliação é extremamente difícil”, critica a pediatra Maria Aparecida Affonso Moysés, docente do Departamento de Pediatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp. Ela questiona a existência nosológica do TDAH, a exemplo de alguns profissionais da área da saúde, inclusive dos campos da neurologia e da pediatria, e não a existência de problemas da desatenção, hiperatividade ou impulsividade.

*FALHAS GRITANTES
Autora do artigo Fracasso escolar: Uma questão médica?, em que chama atenção para a preocupante medicalização na educação, acha que faltam critérios diagnósticos explícitos capazes de afirmar a manifestação de uma doença neurológica. Além disso, acrescenta, às pesquisas que dizem comprovar a existência do TDAH como doença faltam requisitos mínimos de rigor científico: “Apresentam falhas gritantes quanto ao tamanho e à composição da amostra — pequenos grupos, seleção intencional e ausência de tratamento estatístico em todas as etapas da pesquisa; e usam como medida a porcentagem para apresentar as taxas de prevalência”. De acordo com a médica, em saúde não se usa porcentagem como referência para doenças biológicas, “pretensamente de origem genética”, e sim taxas da ordem de 1 por 100 mil e 1 por milhão. “A medida só caberia às doenças sociais, como verminose, desnutrição, anemia”, diz. Se tais critérios fossem aplicados em todas as crianças e jovens, salienta, “não escaparia um do diagnóstico de TDAH”.
Integrante da Comissão de Educação do Conselho Regional de Psicologia do Rio, a psicóloga Mariana Fiore, professora do Ensino Fundamental da escola particular carioca Sá Pereira, no Humaitá — referência pela construção educacional participativa—, põe em xeque a doença: “Por que a hiperatividade remete logo todo mundo à educação?”. “Como não sou médica, não me cabe dizer se é ou não orgânico, mas desconfio muito quando um comportamento se torna doença”, diz. Em sua análise, as escolas trazem muitos desafios e a sociedade, “hoje completamente hiperativa”, aponta cada vez mais para valores de sucesso, de competência e de felicidade. “Como apropriar-se de um transtorno do campo da psiquiatria nesse contexto?”, questiona. Há 10 anos na escola, afirma que se observou uma criança que pudesse dizer ser um caso de TDAH foi muito.
ESCOLA INSOSSA
O mesmo pensa a pedagoga Andrea Travassos, orientadora educacional da Sá Pereira. “A escola de um modo geral ficou insossa, parece a mesma de 40 anos atrás”, observa. Para ela, é preciso saber se o problema é da criança ou da escola que não acompanhou a mudança do mundo. “Todas as crianças fazem as mesmas coisas ao mesmo tempo, será que a falta de concentração não se deve também à falta de inovação do mundo escolar?”.
Na avaliação de Mariana, todos os adjetivos atribuídos antigamente à criança — “agitada”, “levada”, “capeta”, “da pá virada” — foram substituídos pelo TDAH. A diferença, diz, “é que hoje se suporta muito pouco”. Recentemente, surpreendeu-a o caso de um ex-aluno, hoje com 7 anos, que neste 2009 recebeu o diagnóstico de TDAH. “Eu o alfabetizei no ano passado e não via nele nenhuma característica do transtorno”, ressalta. “Como pode de uma hora para outra tornar-se hiperativo?” Em sua opinião, é mais fácil medicar do que lidar com diferenças ou dificuldades.
Fábio, porém, é enfático: o TDAH é real e sério fator de risco. “São crianças e jovens com mais chances de repetição, abuso de drogas e envolvimento em acidente automobilístico”, afirma. O tratamento adequado, segundo ele, envolve intervenções psicossociais e psicofarmacológicas. Neste segundo caso, o remédio receitado até hoje ao portador de TDAH é o metilfenidato, lançado em 1955. A substância está presente na Ritalina ou na Ritalina LA (cloridrato de metilfenidato, na apresentação de cápsulas de liberação modificada), do laboratório Novartis, e no Concerta, do laboratório Janssen, os mais vendidos no Brasil e no mundo.
“Em 1940, pesquisadores observaram que a benzedrina (substância derivada da anfetamina) melhorava o comportamento das crianças agitadas, inquietas e desatentas e começaram a pesquisar uma substância mais limpa e pura, com menos efeitos colaterais, quando então foi descoberto o metilfenidato”, conta. “Como o laboratório vai criar uma doença em 1900 e só lançar o medicamento em 1955?”, questiona, tentando derrubar o “mito” de uma área da saúde, de que a doença foi criada pela indústria farmacêutica. A exemplo da insulina para a diabete, compara, “a substância continua sendo a droga de primeira escolha para o TDAH em todo o mundo”.

Ele lembra que até 1999 não se tinha certeza no Brasil da necessidade da medicação, até um estudo que envolveu seis universidades com mais de 500 crianças com diagnóstico de TDAH, para avaliar as melhores técnicas terapêuticas. As crianças foram divididas em quatro grupos: as tratadas somente com terapia, as que recebiam terapia e medicação, as que recebiam apenas medicação e um quarto grupo orientado por profissionais “não treinados”. Após 14 meses de investigação, observou-se que as que tiveram melhores resultados foram as que receberam medicamento e terapia. “É um alerta de que só terapia ou só tratamento com subdoses ou indicado por profissionais não-treinados não funciona”, salienta. “Causa na família a falsa impressão de que um bom limite resolve o problema de TDAH”.

O mesmo afirma a Declaração Internacional de Consenso sobre o TDAH de 2000, assinada por 80 médicos. Entre os pontos do documento: não há dúvida de que o TDAH é um transtorno genuíno; há suficiente evidência científica de que esse transtorno compromete mecanismos físicos e psicológicos comuns a todas as pessoas; as deficiências ocasionadas pelo TDAH podem acarretar sérios prejuízos na vida das pessoas; há comprovação de que o TDAH pode ser responsável por maior mortalidade, maior morbidade, prejuízos na vida social, no funcionamento familiar, nos estudos e na aquisição de vida independente; e as pessoas com TDAH estão mais sujeitas a acidentes. A contribuição maior para a ocorrência desse transtorno se deve a fatores genéticos e neurológicos, afirma ainda o texto, e o ambiente familiar contribui pouco para isso.

O diagnóstico se baseia em sintomas clínicos relatados pelo indivíduo ou pelos pais e interpretado por especialista, e não é baseado em testes neuropsicológicos, seja eletroencefalograma, mapeamento cerebral, tomografia computadorizada ou ressonância magnética.

Em geral, o especialista faz uso de um questionário que revela sintomas clínicos, nunca escala que varia de “raramente” a “frequentemente” e que toma como base os sintomas do Manual de Diagnóstico e Estatística, 4ª edição (DSM-IV), da Associação Americana de Psiquiatria, para esclarecer aspectos do desempenho do paciente. O documento é encaminhado a pais e professores, o que vale dura crítica de Mariana: “O questionário põe o professor no lugar de quem vai fazer um pré-diagnóstico, e o papel do professor não é diagnosticar”. A patologista americana Marcia Angell (Radis 79) analisa a feitura do manual de diagnóstico citado: os autores são quase todos ligados à indústria.

Na opinião de Mariana, se um médico ou psicólogo quer informação sobre a criança deve ir à escola e conhecer seu contexto. “É preciso conhecer o ritmo e os desafios da sala de aula, conversar com a professora e conhecer as crianças com quem seu paciente convive”, orienta. “A escola é espaço para a criança brincar, aprender, viver em grupo e receber os limites que o grupo impõe, e não para ser diagnosticada por questionário”.
O mesmo pensa Andrea, para quem o questionário é frio, distante e descontextualizado. “O médico precisa observar a criança na escola, mas não tem tempo”, analisa. Apesar das críticas, ela não rejeita a existência do TDAH. “É preciso separar o joio do trigo”, diz. Em sua avaliação, há crianças em hiperatividade ou desatentas que precisarão de tratamento. “Tive na escola uma criança com diagnóstico de TDAH com maior característica de impulsividade”, conta. O menino, lembra a educadora, era exageradamente implicante e agressivo. “Foi a única vez que vi uma criança sofrendo com características do transtorno”. Mas em outras tantas inquietas que passaram a tomar Ritalina nenhuma mudança de comportamento foi percebida. “Precisamos considerar o distanciamento da escola de hoje, senão estaremos diagnosticando como hiperativa a criança simplesmente levada”, alerta.
Para Maria Aparecida, crianças que apenas não se enquadrem em limites externamente impostos, construídos a partir de valores baseados em concepções ideológicas, têm sido rotuladas como portadores de TDAH. “Esse é o problema”, diz. “A partir da rotulação como doentes, passam a receber medicação que potencialmente provoca reações adversas frequentes e graves”, preocupa-se. Segundo a médica, até mesmo a bula da Ritalina alerta para os riscos da medicação: “Verifica-se que algumas reações acontecem de 1% a 10% das pessoas, taxa inaceitável se usarmos o critério de risco e benefício”, observa.
Como médica, ainda que aceitasse que um jovem tivesse problemas de comportamento devido a doença neurobiológica, não o trataria com um medicamento que, segundo advertências na bula, “pode causar tontura e sonolência” ou “levar a tolerância acentuada e à dependência”. Ela afirma que outras reações provocadas pelo metilfenidato já foram descritas em textos de farmacologia, a exemplo da atitude zumbi-alike, pela qual passa a agir como zumbi devido a uma droga.
PESSOAS E VIDAS REAIS
Sua preocupação diz respeito não apenas à hipermedicalização, mas ao simples fato de transformar um comportamento em doença. Segundo a pediatra, isso é resultado da falta de conhecimento dos profissionais sobre as questões do desenvolvimento cognitivo e emocional. “O que falta ao profissional de saúde é saber mais principalmente sobre pessoas reais que vivem vidas reais, e não sobre construções artificiais de doenças como o TDAH”, adverte. Para ela, é urgente reconhecer que não somos iguais, não nos comportamos nem aprendemos do mesmo modo: “Ao contrário, alguns aprendem mais pela visão, outros pela audição, outros ainda por diferentes processos cognitivos”.
Ao mesmo tempo, Aparecida entende que muitas pessoas apresentem dificuldades nas relações, no comportamento e na aprendizagem. “Reconhecer sua existência é muito diferente de afirmar que se trata de doença neurobiológica”, diz. “É resistir à medicalização da vida, do comportamento e da aprendizagem”. Para ela, as necessidades dessas pessoas devem ser atendidas pelos campos da psicologia e da pedagogia, “jamais pela medicação”. A doença não é da criança e do jovem, mas da sociedade que, em vez de acolher, atender e aceitar as necessidades individuais de cada um, exige pessoas padronizadas e conformadas, resume.
Na análise de Mariana, não se pensa mais em criança levada sem se levar em conta o TDAH. “Estamos produzindo doença, transtorno, síndromes, e não saúde”, avisa. Ela compara o surgimento do TDAH à Síndrome de Bournout — distúrbio psíquico de caráter depressivo — entre professores. “O profissional tem jornada de trabalho enlouquecida, salário baixo, precisa dar conta de várias individualidades da aprendizagem e outras carências e, de repente, em vez de discutirmos excesso de trabalho e baixa remuneração, preferimos dizer que ele tem uma síndrome e precisa ser tratado e medicado”. De acordo com a psicóloga, é comum dar remédio quando algo está errado. No lugar da medicação é preciso aprender a lidar com os conflitos e as dificuldades. “Caso contrário, corremos o risco de termos crianças dependentes da Ritalina e da sensação de sentir-se melhor”.
Fábio contesta o argumento de que o metilfenidato seja droga que cause dependência ou que as crianças se tornem robôs, fiquem letárgicas, deprimidas e introvertidas. “Nunca vi nenhuma criança chegar a meu consultório com fissura, abstinência ou intolerância à Ritalina, dizendo ‘pelo amor de Deus, preciso do remédio’”, contesta. A substância serve apenas para aumentar a transmissão neuroquímica de algumas substâncias da região onde se dá a atenção, afirma. “Mas qualquer remédio pode nos surpreender”, ressalva. “Vi uns cinco pacientes, no máximo, que ficaram muito apáticos, apresentando quadro depressivo, e aí o remédio foi tirado e eles melhoraram”. Mas não há estudos que comprovem os efeitos nocivos do metilfenidato, diz. A propósito, cabe lembrar que a ausência de estudos é outra questão que Marcia Angell examina em sua cruzada contra as pressões da indústria.
SEM TRATAMENTO
O perigo, alerta Fábio, é quando o medicamento é receitado a quem não tem o transtorno. “Se eu tomo insulina e não tenho diabete, posso ter problemas”, compara. Para ele, se há hipermedicalização não é pelo fato de se ter produzido uma doença, mas porque há profissionais mal formados e um grupo de jovens achando que o metilfenidato vai melhorar o desempenho no estudo, refere-se ele a reportagens recentes sobre o uso da Ritalina e do Concerta por estudantes em provas. “Mas isso não é significativo se analisarmos o volume de compra do medicamento”, salienta. Segundo ele, apenas 2% da população tomam Ritalina ou Concerta. “Se temos 5% de prevalência, é sinal que algumas pessoas estão sem o devido tratamento”.
No artigo “Conhecimento sobre o transtorno de déficit de atenção/hiperatividade no Brasil”, do qual Fábio é um dos autores — fruto de pesquisa patrocinada pelo Novartis com participação da ABDA —, tenta-se comprovar a falta de conhecimento da população e dos profissionais. Nesse trabalho, foram entrevistados quatro grupos: a população em geral com 16 anos ou mais (2.117), educadores (500), médicos (405) e psicólogos (100). Na população, 189 pessoas (9%) ouviram falar no transtorno, contra 91% que responderam negativamente — dos 189, 69% citaram o TDAH como doença.
SEM PAIS OU LIMITES
Dos educadores, 87% (432) manifestaram ter ouvido falar do TDAH, e 50% não o consideravam doença; 77% disseram acreditar que o portador pode ser tratado com psicoterapia e 52%, com prática de esportes. E 59% disseram que o diagnóstico de TDAH é fruto da ausência dos pais e de limites.
Entre os psicólogos, 67% afirmaram ter contato com portadores do transtorno; para 66%, o portador pode ser tratado apenas com psicoterapia; para 45%, com prática de esporte; para 43%, os pais seriam ausentes; para 29%, o medicamento funciona como droga e causa dependência; 17% disseram que a pessoa pode conviver bem com o transtorno sem tratamento.
Dos médicos ouvidos, 50% (190) tratavam portadores de TDAH. Desse total, 94% disseram indicar medicamentos — Ritalina, 82%; Concerta, 41%; Ritalina LA, 37% —, 86%, medicamento e terapia, e 6%, homeopatia. A pesquisa chamou atenção para o percentual de profissionais que acreditam que muitas crianças têm diagnóstico de TDAH porque os pais são ausentes: pediatras (55%); neurologistas (53%); clínicos (45%); psiquiatras (42%); e neuropediatras (25%). “Tais contradições são geradas pela falta de conhecimento”, avalia Fábio.
O remédio não consta da lista da Relação Nacional de Medicamentos Essenciais (Rename) do SUS. Para Maria Aparecida, motivo pelo qual surjam mais casos de TDAH na rede privada de saúde e menos no SUS. “Como o metilfenidato ainda não foi incluído na lista pública, apesar de todo o lobby da indústria e das entidades ligadas ao TDAH, e como não há equipe multidisciplinar agregada ao consultório do médico, esse não faz o diagnóstico com tanta frequência como na clínica particular”, compara. Os jovens da periferia estariam menos sujeitos ao diagnóstico. “É a desigualdade pelo avesso”. n



       
• No Exclusivo para a web, entrevista de Ana Amstalden, assessora técnica da Coordenação Nacional de Saúde Mental.

Autor:
Katia Machado
Fonte:  http://www.ensp.fiocruz.br/radis/revista-radis/88/reportagens/doenca-do-mau-comportamento    

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Viver com um TDAH




Será que amar uma pessoa é o suficiente para entender, aceitar e tolerar os desabores que é viver com um TDAH?
Lidar com seus atrasos, seus esquecimentos, sua intolerância, seus devaneios, seus rompantes de alteração de humor, seus descasos,…?
Se a pessoa que convive com um TDAH não tiver informação adequada sobre seus sintomas característicos, e pensar que estas reações são direcionadas a ela e ao seu relacionamento, realmente pode ser muito difícil.
Pensando assim pode-se entender porque muitos portadores do transtorno apresentam muitas dificuldades em manter um relacionamento estável e duradouro, ou mantem relacionamtos extremamente conflitantes, com frequentes possibilidades de separação.
Será que os TDAHs estão em constante busca por novidade e por isto não conseguem investir na relação e superar as dificuldades do cotidiano e da rotina que uma relação duradoura oferece? Ou será que é o parceiro quem acaba não tolerando as constantes alterações de humor de seu amor, apesar do forte sentimento que ainda nutre por ele e acaba desistindo da relação?
Existem muitas perguntas sem respostas neste caso e muitas questões em aberto a respeito deste assunto. E todas estas alternativas, dentre tantas outras, podem ser verdadeiras.
É mesmo muito difícil lidar com uma pessoa com tantos sintomas, principalmente quando não se sabe que eles acontecem devido ao TDAH. Seus sintomas acabam irritando as pessoas que com ele (a) convive e a tendência é esta pessoa acreditar que é puro descaso, falta de amor, falta de respeito e consideração.
Uma das características resultante da desatenção e da impulsividade que muito interfere no relacionamento de casal é não ouvir o que o outro fala, ou porque está muito ocupado ou porque está distraído em seus devaneios, o que o leva a interromper constantemente o parceiro (a) quando este fala, sem deixá-lo terminar seu raciocínio. Isto muitas vezes acontece porque tem receio de esquecer o que vai falar, ou não entende o que a pessoa está dizendo e diz alguma coisa que não tem nada haver com a conversa porque está pensando em outra coisa, ou porque já entendeu, ou acha que já atendeu o que a pessoa quer dizer e não quer perder sua linha de raciocínio, então, interrompe.
Geralmente pensa rápido demais e sua fala não o acompanha, muitas vezes pode parecer desconectado com o mundo exterior,… enfiim, vários motivos e justificativas existem, que geralmente tem muito mais relação com a própria pessoa e com suas dificuldades internas do que com contra a pessoa com quem se relaciona, mas sua maneira muitas vezes sem coerência de reagir leva aos desentendimentos, aos longos desacordos e chateações, que vão desgastando a relação. E muitas vezes ele parece nem mesmo entender o que ele (a)pode ter feito para causar tamanha tristeza ao outro.
O fato é que quando o portador é diagnosticado e seu parceiro tem ciência deste fato, quando os sintomas são reconhecidos pelos dois, a situação pode ser amenizada, compreendida e quem sabe até compartilhada, para uma possível mudança no futuro.
Assim, a mudança pode acontecer também na área do relacionamento conjugal, que geralmente é uma das queixas mais constantes. Existe uma tendência natural do parceiro do portador de TDAH relacionar sua maneira de agir, as características do seu parceiro (a) com sua insatisfação com seu relacionamento, descaso, falta de respeito, falta de amor, levar para o lado pessoal, sem saber que muitas das vezes eles nem sabem que fizeram algo errado. Contudo, quando ele (a) conhece os sintomas e as dificuldades comportamentais, emocionais e executivas de seu parceiro (a), esta sensação pode ser diluída e as dificuldades que acontecem na relação começam a fazer sentido, e este pode ser o primeiro passo para a mudança.
Quando um cliente TDAH adulto relata ao seu terapeuta as dificuldades que vivencia em suas relações amorosas e o quanto é para ele complicado manter uma relação tranqüila e estável devido aos seus sintomas, caso esteja mantendo uma relação estável no momento, sugerir que ele (a) faça algumas sessões de casal, pode ser uma postura assertiva de seu terapeuta, e poderá facilitar um maior investimento do cliente em seu processo de mudança e com a ajuda atuante da outra parte interessada no assunto.
Conhecer os sintomas do TDAH e como eles interferem no cotidiano de um portador e conseqüentemente em suas vidas, em seus relacionamentos interpessoais, como isto pode ser minimizado com o tratamento, e a importância do crédito do parceiro (a) para seu investimento e envolvimento contínuo e muitas vezes doloroso, é um fator facilitador durante o tratamento.
Quando a pessoa percebe que as dificuldades de seu amor o fazem sofrer, que suas ações não são premeditadas, que não são indisposição em relação a ela e que ela inclusive pode ajudá-la, a tolerância do (a) parceiro (a) tende a aumentar e as ações cotidianas de ambos também, e estas podem inclusive ser orientadas pelo terapeuta.
O objetivo deste esclarecimento na psicoterapia, onde ambos podem falar o que sentem, o que não gostam no outro, o que está interferindo de forma negativa em suas vidas, mas também podem falar sobre os pontos positivos da relação, não é tornar a relação permissiva e sem limites, mas sim fazer com que os dois percebam que depois da conscientização vem a tomada de decisão em direção a mudança, para ficar mais atento às dificuldades, para saber que existem perdas para as duas partes e como cada um pode se comportar para administrar este processo e ajudar o outro e como resultado melhorar a qualidade do relacionamento.
Esta parceria pode facilitar a conquista da mudança de hábitos e comportamentos. Naturalmente que isto só acontece com a permissão do cliente. Ele pode não querer se expor, pode não querer que seu (a) parceiro (a) saiba que ele tem TDAH e por isto mesmo não querer sua presença em seu setting terapeutico, e ele tem direito a esta escolha. Assim como ainda existem preconceitos das pessoas em relação ao portador, o próprio também tem seus preconceitos. A rejeição já é conhecida sua e ele fará o que puder para evitá-la.
A rigor, quando a parceria acontece, ambos entendem que podem ter resultados positivos, que as dificuldades poderão ser minimizadas e o lado bom de cada um ser pode ser valorizado. Afinal, não existem apenas características negativas num TDAH, e quando as dificuldades são minimizadas as características positivas sobressaem.
Carisma, irreverência e criatividade podem ser estimulantes numa relação e estes são alguns dos maiores valores de um TDAH.





Nazareth Ribeiro
Psicoterapeuta Psicossomaticista Especialista em Clínica e Educação.
Coaching Vocacional e Orientação Profissional.
Coaching TDAH.
Palestrante.

Fonte:http://nazarethribeiro.com/

terça-feira, 7 de agosto de 2012

TDAH - crianças , adolescentes e adultos !

TDAH - Sintomas em crianças e adolescentes!




As crianças com TDAH, em especial os meninos, são agitadas ou inquietas. Freqüentemente têm apelido de "bicho carpinteiro" ou coisa parecida. Na idade pré-escolar, estas crianças mostram-se agitadas, movendo-se sem parar pelo ambiente, mexendo em vários objetos como se estivessem “ligadas” por um motor. Mexem pés e mãos, não param quietas na cadeira, falam muito e constantemente pedem para sair de sala ou da mesa de jantar.

Elas têm dificuldades para manter atenção em atividades muito longas, repetitivas ou que não lhes sejam interessantes. Elas são facilmente distraídas por estímulos do ambiente externo, mas também se distraem com pensamentos "internos", isto é, vivem "voando".


Nas provas, são visíveis os erros por distração (erram sinais, vírgulas, acentos, etc.). Como a atenção é imprescindível para o bom funcionamento da memória, elas em geral são tidas como "esquecidas": esquecem recados ou material escolar, aquilo que estudaram na véspera da prova, etc. (o "esquecimento" é uma das principais queixas dos pais).


Quando elas se dedicam a fazer algo estimulante ou do seu interesse, conseguem permanecer mais tranqüilas. Isto ocorre porque os centros de prazer no cérebro são ativados e conseguem dar um "reforço" no centro da atenção que é ligado a ele, passando a funcionar em níveis normais.


O fato de uma criança conseguir ficar concentrada em alguma atividade não exclui o diagnóstico de TDAH. É claro que não fazemos coisas interessantes ou estimulantes desde a hora que acordamos até a hora em que vamos dormir: os portadores de TDAH vão ter muitas dificuldades em manter a atenção em um monte de coisas.

Elas também tendem a ser impulsivas (não esperam a vez, não lêem a pergunta até o final e já respondem, interrompem os outros, agem antes de pensar). Freqüentemente também apresentam dificuldades em se organizar e planejar aquilo que querem ou precisam fazer.


Seu desempenho sempre parece inferior ao esperado para a sua capacidade intelectual. O TDAH não se associa necessariamente a dificuldades na vida escolar, embora esta seja uma queixa freqüente de pais e professores. É mais comum que os problemas na escola sejam de comportamento que de rendimento (notas).

Um aspecto importante: as meninas têm menos sintomas de hiperatividade-impulsividade que os meninos (embora sejam igualmente desatentas), o que fez com que se acreditasse que o TDAH só ocorresse no sexo masculino. Como as meninas não incomodam tanto, eram menos encaminhadas para diagnóstico e tratamento médicos.



Fonte: http://tdah.org.br/quadro01.php

FONTE DE PESQUISA:

http://sites.google.com/site/paisempenhados/Pais-Empenhados/crescer-no-projecto

http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=W_mhjKLsnsk

Programa Jo Soares - Entrevista com a médica psiquiatra Dra Ana Beatriz Barbosa Silva sobre TDAH (DDA) - hiperatividade -, tema do livro de sua autoria Mentes Inquietas.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Desabafos e Depoimentos

Isso mesmo,  não é uma questão de achar menos capaz, como vc disse, é uma questão de adaptação.Mas para muitos pais, essa adaptação não é fácil. E pelos casos que eu vejo (não só de TDAH, mas de outros transtornos e doenças tb), na maioria das vezes essa dificuldade não tem relação nenhuma com falta de amor ou descaso, tem a ver com outras dificuldades.
O que eu quis dizer com o meu comentário é que, no geral, a sociedade idealiza demais o papel dos pais, esquecendo de que ai e mãe têm dificuldades como qualquer outra pessoa. Para não generalizar demais, vou falar de mim. rs... Meu pai é um paizão, sempre foi. Desses pais companheiros, sempre muito presente. Ele nunca me discriminou por eu ter TDAH, nunca deixou de me incentivar, mesmo antes do diagnóstico sempre  me apoiava, qd eu tinha alguma dificuldade. No entanto, qd me coloco no lugar dele, eu acho realmente que para ele, muitas vezes, deve ter sido difícil conviver comigo, ele deve ter sim se decepcionado, é normal, ele é humano.
Acho que qd a criança é diagnosticada, os pais tem a chance de entender muitas dificuldades que esse indivíduo tem
ao longo da vida. Comigo não foi assim. Fui diagnosticada com 27 anos, depois de já ter concluído meu curso superior.
No entanto, antes de concluir essa graduação, eu já tinha entrado e largado 4 faculdades.
Para o meu pai, que construiu uma carreira muito sólida, o parâmetro que ele tinha pra mim e para minha irmã, era ele.
Ser igual a ele não era uma exigência, mesmo pq ele sempre soube que isso não existe, mas a expectativa de que eu entrasse na faculdade, me formasse, começasse a trabalhar, existia e acho super normal. Com a minha irmã, que não tem TDAH, foi assim, ela entrou na faculdade aos 17 anos, se formou aos 22 e começou a trabalhar. Se pra mim era angustiante e sofrido demais entrar em um curso e depois largar, sem nem imaginar a razão disso, imagino que pra ele tb tenha sido.