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terça-feira, 20 de setembro de 2016
Desatentos Sonhadores
O tipo desatento do TDAH, é também conhecido como sonhador (daydreamer).
Enquanto os agitados hiperativos roubam atenção dos pais, professores, médicos e pesquisadores, os sonhadores desatentos, passaram despercebidos por anos, e, ainda hoje, são no geral, os que demoram mais a ser diagnosticados.
Na verdade, os desatentos sonhadores de certa forma, gostam de passar despercebidos, porque assim, podem esconder-se em seu fantástico mundo interior, ou ‘La La Land’, como dizem os americanos.
Os desatentos sonhadores se apresentam geralmente como introvertidos, ansiosos, mimados, descoordenados, distraídos. Na escola o rendimento pode ser mediano, mas, testes de QI são normais. Como tendem a ser quietos e calados, incomodam menos que as crianças disruptivas, assim, vão passando quase invisíveis.
Estas crianças também podem, aparentemente, ser menos ‘bagunceiras e desorganizadas’; por exemplo, se uma criança desatenta sonhadora tem uma mãe disciplinadora que a ‘obriga’ a arrumar o quarto, provavelmente ela vai arrumar o quarto, porque, enquanto o faz, ela pode ficar sozinha em seus devaneios. Ela pode executar qualquer atividade, desde que não exija raciocínio, como deveres escolares, com aparente boa vontade, só que levando muito mais tempo. Assim, ela parecerá uma criança ‘boazinha e cooperativa’, porém lenta. Ela também tenderá preferir brincar sozinha, ou seja, ela fará tudo o que puder para dedicar seu tempo a seus sonhos, seu mundo interior.
Assim como seus pares hiperativos, o sonhador pode desligar-se de seus devaneios e conseguir focar em atividades externas, se estas o estimularem. Para os sonhadores, uma das melhores formas de estimular o interesse em coisas ‘reais’ é a ludicidade.
Mas, é imprescindível que pais e professores se lembrem que, o que estimula essas pessoas é a fantasia, assim, não adianta querer simplesmente traze-las ‘à realidade’. Força-las só irá torna-las mais apáticas e seus cérebro irá buscar formas de escapar.
Uma boa alternativa para ajudar essas pessoas a focar, é um exercício de alternância. Uma vez que elas entendam que precisam se concentrar, nem que seja eventualmente em coisas práticas, pode-se treinar um ‘liga-desliga’, do tipo agora estudo, mais tarde sonho. Obvio que não é fácil, mas, é possível exercitar.
Há que se lembrar também, que cada criança é única, assim, as fantasias e interesses de um, não serão as mesmas que de outro. Também o tipo de fantasia se modifica com a idade, assim uma criança de 7 anos pode viver a fantasia de que é uma fada ou um super-herói e pode voar, por exemplo, e uma de 14 pode imaginar-se como um superagente secreto do CSI ou alguém que tem poderes de falar com alienígenas.
É preciso esclarecer que essas fantasias e devaneios são intensos, são realidades internas, no entanto, não são alucinações; essas pessoas sabem distinguir perfeitamente o mundo externo (real) do mundo interno (irreal para os demais, mas real para ela), inclusive e provavelmente elas quase nunca irão compartilhar seus sonhos com alguém. É o mundo delas, e só delas. É quase como se vivessem simultaneamente em mundos paralelos, só que em um, tudo é brilhante e excitante e exatamente como elas querem, portanto, elas preferem dispender seu tempo naquele que lhe dá mais prazer.
Esses devaneios podem diminuir com o passar dos anos, mas aparentemente nunca se vão por completo, uma vez que existem muitos adultos desatentos que relatam serem assim.
AAAANa adolescência e idade adulta, quando podem compreender as exigências sociais, elas podem entrar em conflito, e aí, dependendo dos fatores ambientais, familiares e sociais, elas podem: desenvolver estratégias para ‘conciliar os dois mundos’, por exemplo, me concentro no trabalho quando estou lá, mas no carro e no chuveiro, vivo no meu mundo; ou, elas podem encontrar profissões e atividades muito estimulantes compatíveis com seus sonhos, por exemplo se tornar escritor; ou elas podem paralisar e se tornar adultos com muito potencial que acabam nunca se desenvolvendo.
Essas pessoas geralmente gostam de contar estórias e tendem a colocar mais cor, brilho, intensidade, emoções e sentimentos quando contam suas estórias. Quando narram algum fato, também tendem a ‘colorir’ e são capazes de contar detalhes, detalhes esses que normalmente causam sensações e emoções. Tendem a exagerar e até inventar detalhes para deixar o fato narrado mais emocionante.
Dois personagens de ficção que podem ilustrar bem os sonhadores desatentos são, Amelie Poulain, do filme “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain” e Ed Bloom do filme “Peixe grande e suas histórias maravilhosas”.
http://abdatdah.net.br/br/artigos/textos/item/1175-desatentos-sonhadores.html
TDAH E O PROCESSO DE APRENDIZAGEM
O TDAH é um dos transtornos neuropsiquiátricos mais conhecidos na infância. Devido à baixa concentração de dopamina e/ou noradrenalina em regiões sinápticas do lobo frontal, leva o indivíduo a uma tríade sintomatológica de falta de atenção, hiperatividade e impulsividade, ocasionando sérias dificuldades para o processo de aprendizagem.
Falta de atenção, para o caso da criança portadora de TDAH significa excesso de mobilidade na atenção, ou seja, hipermobilidade, que é quando o indivíduo não consegue manter, por algum tempo, sua atenção em um mesmo objeto, em um mesmo foco. É a atenção espontânea que predomina.
Hiperatividade significa um aumento da atividade motora, deixando a mesma quase constantemente em movimento.
As definições da palavra impulsividade – força que impele estímulo, abalo, ímpeto, impulsão – ajudam a compreender a maneira pela qual o indivíduo portador do TDAH reage diante do mundo. Pequenas coisas podem despertar-lhes grandes emoções e a força dessas emoções gera o combustível de suas ações.
Estudos cada vez mais aprofundados e específicos sobre o TDAH desvendam novas técnicas de enfrentamento para esta problemática, novos recursos psicoterapêuticos e medicamentosos, com a finalidade de que haja uma diminuição da interferência que os sintomas do TDAH causam na vida da pessoa, fazendo com que esta consiga aumentar a concentração e controlar a hiperatividade e a impulsividade.
Recursos estes se tornam especialmente necessários para as crianças do período pré-escolar e ensino fundamental, onde a desatenção e a impulsividade comprometem além do processo de aprendizagem, os relacionamentos e a autoestima.
A falta de informação, conhecimento e compreensão que envolve o processo escolar são grandes obstáculos que a criança enfrenta neste período juntamente com as características do transtorno, fazendo com que professores colegas e pais considerem o comportamento desta criança como sendo rebelde e desinteressado, tendo para com ela um tratamento preconceituoso.
Alguns aspectos são importantes que sejam avaliados a fim de que não sejam cometidos enganos no diagnóstico de TDAH, sendo eles:
- Avaliar a frequência e a intensidade que estes sintomas aparecem, a duração dos mesmos e a interferência que eles causam na vida, ou seja, se acarreta ou não prejuízo no funcionamento da pessoa.
- Avaliar se os sintomas existem desde a infância ou início da adolescência.
- Avaliar se os sintomas não estão sendo provocados por nenhum outro transtorno conhecido.
Somente após esta cuidadosa análise, é que se pode caracterizar o transtorno, afinal, toda pessoa pode apresentar um ou mais comportamentos similares aos sintomas do TDAH em algum momento da vida, sem necessariamente apresentar um diagnóstico patológico.
Para os indivíduos em que predomina a hiperatividade, uma característica importante que vale ser ressaltada é que estes, inconscientemente, buscam conflitos como uma maneira de ativar seu próprio córtex pré-frontal. Não planejam fazer isso, negam que fazem, e ainda assim fazem. Isso ajuda a aumentar a atividade de seus lobos frontais e a se sentirem mais estimuladas. Embora não seja um fenômeno consciente, parece que ficam viciadas em confusão. A hiperatividade se manifesta com movimentos frequentes, a criança bate com os pés, mexe as mãos, não pára quieta, corre o tempo todo.
Nos portadores de TDAH predominantemente desatentos, parece que quanto mais a pessoa tenta se concentrar, pior para ela. A atividade no córtex pré-frontal se desliga ao invés de ligar. Quando um pai, um professor, um chefe, põe pressão na pessoa que tem déficit de atenção, ela se torna menos eficiente, fazendo com que o supervisor interprete isso como decréscimo no seu desempenho ou má conduta proposital. O que acontece é que todos nós funcionamos melhor com elogios, mais intenso então, é quem possui essa patologia. É adequado trabalhar com essas pessoas com estímulo e ambientes que sejam altamente interessantes e tranquilos, para que se tornem mais produtivas. O mais incrível é que essas pessoas frequentemente conseguem prestar atenção em coisas bonitas, novas, interessantes ou assustadoras, que oferecem estimulação e ativam o córtex pré-frontal, conseguindo se focalizar e concentrar. A desatenção pode acontecer em situações escolares, profissionais ou sociais. Frequentemente dá-se a impressão de que a mente está em outro lugar ou que não escutou o que foi dito. Há uma dificuldade em completar tarefas, compreender instruções, organizar atividades. Seus objetos são desorganizados e com frequência são perdidos, desleixados, danificados. Os portadores de TDAH distraem-se com qualquer ruído, esquecem coisas das atividades diárias, esquecem compromissos marcados, não prestam atenção no que os outros dizem.
Nos portadores de TDAH predominantemente impulsivos, a mente funciona como um receptor de alta sensibilidade, que, ao captar um pequeno sinal, reage automaticamente sem avaliar as características do objeto gerador do sinal captado. A impulsividade se manifesta como impaciência, responder precipitadamente antes do término das perguntas, dificuldade de aguardar a sua vez para falar, interromper ou intrometer nos assuntos alheios, causando muitas dificuldades nos contextos sociais, escolares ou profissionais.
A dificuldade escolar é uma queixa frequente de pais e professores de crianças com TDAH. É por este motivo que os pais normalmente recorrem com veemência a neuropediatras, psicólogos e psicopedagogos. De acordo com dados estatísticos, a dificuldade escolar está entre as sete queixas mais frequentes. Para o SAEB, (Sistema Nacional da Educação Básica), o desempenho escolar depende de diferentes fatores: características da escola (físicas, pedagógicas, qualificação do professor), da família (nível de escolaridade dos pais, presença dos pais, interação dos pais com escola e deveres) e do próprio indivíduo (saúde mental, visual, auditiva, nutricional, etc). Somado a esses e outros fatores, tem-se discutido muito o problema das crianças portadoras de TDAH, considerando que sua atividade motora e mental é inadequada, excessiva e muitas vezes denominada erroneamente, como agitação ou inquietação por vontade própria. Os pais que ainda não perceberam ou não aceitaram que o filho possui o transtorno de hiperatividade e/ou déficit de atenção, ao ingressar o filho na escola, sentirão a necessidade de se interar dessa problemática, mais precisamente na fase de alfabetização e daí para frente. Ou porque a conduta “arteira” não é bem vinda, ou porque as notas não vão muito bem.
A prevalência do déficit de atenção e hiperatividade está entre 3% e 5% em crianças em idade escolar e costuma ser mais comum em meninos do que em meninas. É considerada uma das patologias psiquiátricas mais freqüentes nesse grupo etário, devendo ser assistida por profissionais experientes nas áreas de neuropediatria, psiquiatria ou interdisciplinares.
As crianças com TDAH apresentam maior dificuldade para aprendizagem e problemas de desempenho em testes e funcionamento cognitivo em relação aos seus colegas, principalmente por dificuldades nas suas habilidades organizacionais, capacidades de linguagem expressiva e/ou controle motor fino ou grosso. O funcionamento intelectual dessas crianças não difere das outras, o transtorno parece não afetar as capacidades cognitivas gerais, o TDAH não está relacionado à falta de capacidade, mas a um déficit de desempenho. A maioria das crianças portadora desse transtorno tem desempenho escolar abaixo do esperado devido à realização incoerente de tarefas, desatenção e problemas de procedimentos em sala de aula, fazendo que constantemente percam mérito por participação e comportamento.
Muitas crianças e adultos com TDAH e mais especificamente o DDA têm letra feia e consideram o ato de escrever difícil e estressante, preferem digitar, por não ser um movimento harmônico contínuo, e sim uma atividade motora de começa e pára. Também se queixam da dificuldade de tirar os pensamentos da cabeça e colocá-los no papel, “os dedos não sabem dizer o que o cérebro está pensando”...
É preciso que os professores conheçam um pouco sobre o TDAH, para não criarem barreiras em relação ao aluno e tentarem dar uma maior atenção a quem possui o transtorno. Estudar em turmas pequenas, sentar próximo ao quadro e ao professsor, sala com poucos detalhes que possam dispersar a atenção, permissão especial para ter mais tempo de fazer as tarefas sem punições, são algumas dicas que podem ajudar muito essa criança.
A criança com TDAH deve aprender aos poucos, e aplicar em seu dia-a-dia mais eficácia, ou seja, não apenas focar um processo ligado à tarefa, mas chegar a um resultado satisfatório, do que eficiência (aplicar muita energia, tempo, dedicação e empenho para a realização de uma determinada tarefa). Desta forma, o desgaste emocional será menor e os resultados, mais satisfatórios. Essa criança provavelmente realizará tarefas que proporcionam desafios e emoções, mesmo que seja exaustiva, em condições muito melhores do que tarefas que lhe exijam concentração e tempo.
A prescrição de medicamentos psicotrópicos é o tratamento mais comum para o TDAH. Numerosos estudos têm demonstrado, de modo coerente, a rápida melhora do funcionamento comportamental, acadêmico e social da maioria das crianças tratadas com substâncias estimulantes. São chamados assim em virtude de sua capacidade comprovada de aumentar a excitação ou “alerta” do sistema nervoso central.
Estas medicações melhoram extraordinariamente a capacidade motora da pessoa de colocar seus pensamentos no papel, aprimoram a atenção e a impulsividade, aumentam a motivação e a concentração, com a vantagem de não provocar dependência nos usuários. Esses medicamentos não curam o TDAH, mas ajudam a normalizar os neurotransmissores durante o seu uso. Dessa forma, diminui as consequências negativas emocionais, acadêmicas e sociais.
Associado aos estimulantes, as psicoterapias exercem efeitos eficazes no tratamento do TDAH, principalmente nas crianças, pois a modificação comportamental é necessária para o bom desempenho escolar e minimiza os conflitos nos relacionamentos. Outras intervenções como terapia comportamental familiar, participação dos pais em grupos de apoio e treinamento aos professores são coadjuvantes ao tratamento para que a criança não se sinta discriminada perante os outros e para que todos aprendam a contornar melhor as adversidades advindas do transtorno.
Denise Ferreira Ghigiarelli – CRP 06/107690
Especialização em Terapia Cognitivo Comportamental-HCFM-USP
Fonte:Texto e Imagem
http://www.tdah.org.br/br/artigos/textos/item/1065-tdah-e-o-processo-de-aprendizagem.html
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Educando uma Criança com TDAH
A maioria das crianças se entusiasmam pela escola. Mas para a minha filha de oito anos, a escola representa sérios desafios. As probabilidades são colocadas pesadamente contra ela. Eu posso ver e sentir sua apreensão enquanto ela verifica seu material uma última vez. Ela sobe ao meu colo precisando de um apoio extra. Ao me abraçar, acaricio seu cabelo recém-lavado, e suavemente falo uma vez mais o quanto eu a amo Que ela vai conseguir e que será bem sucedida. Em sua forma única e original.
Em sua testa há um rótulo invisível onde se lê: “TDAH" Esta palavra entrou na minha vida e se tornou parte do meu vocabulário há nove meses, em um consultório médico. Olhando para trás, percebo que com a idade de dois anos tornou-se evidente que ela era mais ativa e mais difícil de controlar do que a média das crianças. No entanto, não me ocorreu naquele momento que algo estava realmente errado. Achava que estava lidando com um tipo de personalidade.
Lembro-me que eu estava ocupada com ela a partir do momento em que ela acordava até a hora em que ia dormir e fechava os olhos. A fim de lidar com a sua hiperatividade e sua capacidade de destruir a casa (literalmente), eu praticamente me mudei para o parque, que felizmente, ficava ao virar a esquina do meu apartamento. Acho que eu poderia ter vencido o Guinness em "a mãe que fica mais tempo no parque"! Eu sentei lá por praticamente sete anos! Com chuva ou sol, lá estávamos nós.
No inverno, eu aquecia nós duas com camadas de roupas. Na chuva, usávamos botas de borracha e capas de chuva plásticas. No verão, passávamos protetor solar! Eu estava bem equipada. Eu embrulhava o jantar para dois e levava ao parque. A mesa do parque não tinha uma toalha que ela poderia tirar fora! O parque não possuia paredes para escalar, armários para desmontar, ou camas para saltar. Tinha gangorras, escorregadores, barras e balanços além de muita grama para correr. Exatamente o que ela precisava! E foi assim que consegui administrar. Sou uma pessoa do tipo orientada a soluções; então para mim esta foi a solução.
Infelizmente, isto não solucionou os problemas acadêmicos e questões sociais e emocionais de minha filha que vieram à tona, ao longo do tempo. Nossas finanças também sofreram, como os meus planos para "voltar ao trabalho depois que o bebê se torna-se grande o suficiente" nunca se concretizaram. Ela era sinônimo de trabalho em tempo integral. O que nos restou foi ter que administrar o modesto salário do meu marido.
Um dia, no meio de seu ano letivo da primeira série, recebi um telefonema de sua escola informando-me que uma reunião havia sido programada e eu deveria estar lá. No fundo, eu sabia que a hora de enfrentar os obstáculos havia chegado. Então lá estava eu em uma cadeira dobrável de metal (meu marido sentiu-se incapaz de deixar o trabalho para comparecer), olhando através de uma mesa para o diretor da escola, seu assistente e professores! Embora tivessem sido muito educados e estivessem realmente preocupados com o bem-estar da minha filha, me senti como uma ovelha enfrentando lobos. Não morderam minha cabeça como eu esperava, mas declararam que minha filha estava ficando para trás em seus estudos, tanto em Inglês quanto Hebraico, e que perturbava muito as aulas. Continuaram dando mais detalhes como o fato de ela levantar-se-se a hora que queria no meio da aula, não obedecia regras nem instruções, respondia questões sem ser chamada… Como se isso não bastasse, me informaram que ela era socialmente um "desastre". Eles me instruiram a levá-la a um psiquiatra, para avaliá-la e receber tratamento necessário.
Não perdi tempo em resolver este assunto o quenato antes. Fiz muitos telefonemas e uma extensa pesquisa tentando encontrar o psiquiatra mais competente. Quando minha filha foi finalmente diagnosticada, senti uma mistura de emoções. Fiquei aliviada ao saber que uma situação até então incompreensível, ao menos estava agora fazendo algum sentido. Também senti que um problema que possui uma classificação, também pode ter uma solução. No entanto, ao mesmo tempo, senti-me esmagada e isolada. Eu estava preocupada que o diagnóstico se tornaria um rótulo usado para julgar e condenar minha filha. Eu me questionava como ela conseguiria lidar com a escola e o mundo lá fora.
Não tive qualquer apoio do meu marido, que negava tudo e continuava a insistir que TDAH não é uma desordem real. "O que ela precisa", insistia ele, "é uma mão de ferro!" Ele, como ocorre com muitos pais, tinha dificuldade em admitir o fato de que sua filha não era como todo mundo.
Tendo uma aversão permanente ao uso de qualquer tipo de medicamento, para mim aceitar o fato de que minha filha pudesse precisar de estimulantes, a fim de capacitá-la a funcionar na escola não foi nada fácil. (aliás, tenho certeza que muitos de vocês estão se perguntando por que uma criança hiperativa precisa de estimulantes. Minha filha e suas colegas de TDAH parecem ser orgulhosas proprietárias de cérebros subdesenvolvidos que têm falta de atenção. Ritalina atinge essa parte do cérebro e ajuda a melhorar a concentração e foco.) Após exaustiva pesquisa cedi a cumprir as recomendações médicas e ela começou a tomar uma dose bem baixa. Embora no início ela tenha tido alguns efeitos colaterais, como dificuldade para adormecer e uma diminuição do apetite, com o tempo esses sintomas diminuíram consideravelmente, e devo confessar que a medicação fez uma enorme diferença em nossas vidas.
As coisas pareciam resolvidas e terem entrado em uma rotina. Surpreendentemente, esta semi-pausa me deu tempo de parar e pensar (um luxo que eu não tinha há muito tempo), e percebi que por trás de meu alívio havia um forte sentimento de perda e decepção. Inconscientemente, eu tinha imaginado uma criança que, como eu, seria uma estudante destacada e popular entre as colegas.
Uma onda de raiva e auto piedade tomou conta de mim. Por que justo eu havia sido eleita para enfrentar este problema? Por que minha filha, tão inocente precisa lutar com esta deficiência? Por que meu marido não poderia ser mais solidário? Por que as pessoas de fora não eram mais compassivas e compreensivas com minha filha?
Estas questões permaneciam em minha mente ao longo dos dias. Uma noite, depois de um dia cansativo como sempre, afundei no sofá, recostei minha cabeça e fechei os olhos. Alguns segundos depois (é assim que me pareceu, mas poderia ter sido mais), abri meus olhos, pronta para terminar as tarefas da noite, quando vi minha filha em pé, parada ao meu lado. Estava mais do que um pouco surpresa, pois não conseguia lembrar de tê-la visto assim desta forma, ao meu lado em pé. Ela olhou para mim com um ar sério como um adulto, e perguntou: "Mamãe, você me ama?" Fiquei parada sentindo um aperto forte na garganta. Estendi minha mão e puxei-a para meu colo abraçando-a bem forte: “Claro que sim!” E sussurrei. "Eu te amo muito!"
Depois que ela tinha adormecido e eu estava lavando os pratos na cozinha, pensei sobre o que tinha recém acontecido. Eu estava cuidando das tarefas, de tudo o que precisava ser feito, mas não estava cuidando de mim mesma. Eu não estava estava me alimentando fisicamente, emocionalmente e espiritualmente, e foi isto que resultou em meus ressentimentos. Minha filha percebeu isto. Comecei a prestar atenção aos meus hábitos alimentares, cortando alimentos nocivos, incluindo alimentos ricos em vitaminas e suplementos adicionais a minha dieta. Entrei para um grupo de danças e adicionei uma série de "vitaminas e exercícios espirituais", que gostaria de compartilhar com vocês.
A primeira, é claro, é a vitamina A-Aceitação. Aprendi a aceitar minha vida como ela é.
A segunda é a vitamina E- Evidência. Evidencio que nada na vida acontece por acaso. Tudo é parte de um plano mestre orquestrado por um D’us amoroso, e ambos nossos dons e nossas lutas são feitos sob medida para nos guiar em direção ao crescimento e desenvolvimento espiritual.
A vitamina C é a Coragem. Eu tenho a coragem de seguir em frente apesar das incertezas e medos.
A vitamina D está para Determinação. Estou determinada a superar as minhas fraquezas e focar em D’us ao invés de em mim mesma.
Vitamina F? Você adivinhou- Fé. Reafirmo diariamente que D’us nos acompanha e nos apoia em cada passo do caminho.
Vitamina G é a Gratidão. Quando eu procurar com vontade as coisas pelas quais devo agradecer, ficarei surpresa. Em todas as direções que olho vejo bênçãos. Às vezes observo minha filha comportando-se bem e tornando-se maleável. Eu comecei a dizer "obrigado" a D’us pelo milagre da vida. Comecei a sorrir.
Vitamina H –Humor. Estou começando a reagir com alegria ao invés de frustração. Estou começando a me iluminar. Há tanta coisa para se rir.
E por último, mas não menos importante, é a vitamina P – Prece, que tanto quanto eu saiba, é muito mais eficaz do que Prozac. Ao recitar o Salmo 121, "Levanto meus olhos para o céu, de onde virá a minha ajuda?" Minhas perguntas se dissolvem. "O meu socorro virá do Altíssimo! Aquele que criou o céu ea terra. "
Sentamos juntas na varanda da frente e examinamos o conteúdo de sua mochila, para termos certeza de que nada está faltando. O ônibus escolar amarelo chega e abre a porta. Minha filha corre em sua direção, os cabelos loiros ondulados voando sobre seu rosto em desordem. Ela olha para mim e, nesse segundo, o olhar em seus olhos me diz o que está em seu coração e mente. Ela sabe que de mim sempre receberá amor incondicional. Enquanto ela sobe as escadas do ônibus, sei que ela terá as habilidades necessárias para marchar ao longo do dia. Se houver algo que ela não conseguirá controlar, ela irá informar-me e receber a validação e apoio. Nem sempre posso resgatá-la. Nem sempre poderei resolver seus problemas. Mas posso oferecer um bom ouvido e, quando ela estiver pronta, discutir formas de como ela poderá lidar com a questão. Em situações intensas poderei intervir e lutar por ela. Eu sou sua assistente social, e ela é minha única cliente.
O ônibus escolar parte barulhento pela rua, e minha vizinha do andar de cima desce para me entregar seu bebê de dois meses e uma sacola repleta de suprimentos. Ela está muito feliz em poder sair de casa por algumas horas, e me considera a babá ideal. Minha vizinha se apressa para ir trabalhar na loja de doces de seu tio, onde ela irá decorar cestas e encontrar pessoas. Ela sente-se mais do que feliz em dividir o seu salário comigo, o que lhe rende um dinheirinho e para mim uma renda extra necessária para fechar o mês. Eu mantenho o bebezinho de minha vizinha em meus braços e ele sorri para mim. Depois que eu alimentá-lo e trocá-lo me fará companhia enquanto executo o trabalho doméstico. Seu comportamento plácido nunca deixa de me surpreender. No momento em que minha filha chega da escola, eu vou estar pronta para levá-la ao parque, onde vamos saborear o jantar e fazer algum trabalho de casa.
Minha vida não acabou como retratado ou planejado, e isso está ok para mim. Em vez de uma princesa mimada, estou me tornando uma heroína corajosa. Minha filha olha para mim e seus olhos transmitem confiança e admiração. Nossa jornada está longe de terminar, mas juntas estamos aprendendo a desfrutar do passeio.
http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/1854988/jewish/Educando-uma-Criana-com-TDAH.html
Janela do Meu Filho
Como pais, nós sabemos mais que os nossos filhos. Somos mais velhos e mais sábios. Temos mais experiência e esta experiência muitas vezes nos torna mais práticos, mais espertos nos caminhos do mundo.
Em nosso desejo de ajudar os nossos filhos, com freqüência nos sentimos inclinados a partilhar este conhecimento com eles, dar-lhes conselho, ou simplesmente dizer a ele o que achamos que pode ser útil.
Mas quando refletimos sobre nossa própria vida podemos achar que ter recebido o conhecimento de uma outra pessoa, ser aconselhado com base na sabedoria dos outros, não ajudou muito. Em vez disso, preferimos descobrir a verdade por nós mesmos. E apreciamos aqueles que ajudaram neste processo de descoberta, em vez de interrompê-lo.
Como pais, desempenhamos muitos papéis e muitas formas de relacionamento são possíveis com nossos filhos. Dentre eles, guia e mentor, amigo, aliado, companheiro e apoio. Devemos dançar delicadamente na corda bamba da sabedoria, autoridade e disciplina, enquanto permanecemos como fontes de amor e aceitação incondicionais.
Vejo estes papéis como complementares, não contraditórios. O fato de sermos próximos aos nossos filhos não enfraquece nossa autoridade; desenvolver a amizade não diminui o respeito; aceitá-los como são não nega a oportunidade de aperfeiçoamento. Ao contrário, é uma questão de tempo, de julgar cada oportunidade para julgar qual aspecto de nosso relacionamento desejamos melhorar num determinado momento.
Em nosso desejo de ensinar e orientar nossos filhos, podemos passar muito depressa por uma etapa essencial: conhecê-los e aceitá-los como são, entender como eles percebem e sentem o mundo que os cerca. Sem este passo, talvez achemos nossos esforços para educar não apenas fúteis, mas também provocar uma rebelião. Conhecer e aceitar nosso filho por aquilo que é, tentando entender como ele vê o mundo, partilhando uma sensação mútua de admiração sobre o mundo, ajudará em nossos esforços na educação e orientação e, ao mesmo tempo, ajudará a nos aproximamos deles.
Em vez de enxergarmos nossos filhos como recipientes vazios esperando para serem cheios, e a nós mesmos como fontes transbordantes de sabedoria ansiosas para enchê-los, vamos imaginar por um momento que possuem seu próprio nível de conhecimento e experiência. E embora não sejamos recipientes vazios, sejamos pelo menos vazios de preconceitos sobre quem são eles e o que eles sabem, e abordar nossos filhos com genuína curiosidade e senso de admiração.
Nem sempre os filhos fazem sentido, porém geralmente há algum sentido naquilo que à primeira vista pode parecer sem sentido. Se você como pai acredita nisso, então sua conversa com seus filhos ajudará a revelar o sentido deles, o significado e a lógica que se escondem por trás das suas palavras. Quando você age assim, passa a fazer parte de uma deliciosa aventura na descoberta daquilo que seu filho pensa sobre o mundo. E se você puder fazer isso sem tentar corrigir o pensamento dele, começará a ver o mundo como ele vê, não importando se ele se conforma ao sentido adulto da realidade como você a percebe.
Assim, um ingrediente chave para esta jornada ao ser interior do seu filho é uma curiosidade genuína sobre quem ele é. Esta curiosidade é isenta de um motivo oculto e vem tanto com o carinho pelo seu filho quanto pela afirmação que a realidade para vocês dois é mais uma questão de percepção que uma declaração de fato. Em outras palavras, o mundo é aquilo que fazemos dele. Aquilo que sentimos e pensamos na verdade depende das lentes através das quais nós vemos o mundo.
Você procura, simplesmente, ter um vislumbre do mundo através das lentes do seu filho, Será uma lente única. Cada um de nós, criança e adulto, vê e entende o mundo de maneira única. Isso desenvolverá confiança e proximidade? Examine os seus relacionamentos com as pessoas que o rodeiam. Num ambiente receptivo, com pessoas que estão realmente curiosas sobre nossa maneira de ver o mundo e que nos encorajam a partilhar nossas percepções; quem entre nós não se torna amigável? Com freqüência, ficamos lisonjeados por tanta atenção, gratificados por que nossas opiniões são procuradas e valorizadas.
Os filhos não são diferentes. Eles também florescem à luz da sua genuína curiosidade e interesse, em sua aceitação e apreciação. Eles sentirão não apenas o seu interesse e carinho, como também como você é enriquecido pelo privilégio de partilhar o ponto de vista de outra pessoa, especialmente a opinião de alguém que você ama.
Você será enriquecido? Certamente. Pois um dos maiores prazeres dessas jornada de descoberta é o presente de partilhar o mundo de outra pessoa. É como se você tivesse recebido a capacidade de ver o mundo com olhos novos, descobrir um mundo tão autêntico quanto o seu, porém completamente desconhecido para você.
Você não está descobrindo o mundo de uma criança, está descobrindo o mundo como ele é visto pelo seu filho. E é um mundo tão real quanto o seu ou outro qualquer. É tão novo quanto uma tela de Rembrandt, tão abrangente quanto Einstein, tão incomum quanto um Van Gogh, tão assustador quanto um livro de Edgar Allan Poe. Um mundo que tem sua própria harmonia e lógica, se você conseguir entrar nele com tempo suficiente para ouvi-lo e entendê-lo.
Um pai relata:
Olhando pela janela, meu filho viu uma árvore cujos galhos balançam sem parar.
"Como a árvore mexe os galhos dessa maneira?" pergunta ele.
Sem me levantar da cadeira, nem tirar os olhos do livro, começo a responder: "A árvore não está movendo os galhos. É o vento…" Mas antes de deixar as palavras saírem, caio em mim. Em vez de falar, levanto-me da cadeira e vou até a janela, para perto do meu filho. Olho para a árvore. Dentro do quarto, por trás da janela fechada, não posso sentir nem ouvir o vento. Vejo apenas uma árvore com os galhos balançando e penso comigo mesmo: dentro desse quarto, como posso ter certeza de que os galhos estão se movendo por causa do vento, em vez de por vontade própria? Enquanto estou ali com meu filho observando a árvore, fico hipnotizado pelo movimento dos galhos, pelo tremular das folhas. Minha mente se aquieta e fico menos seguro sobre o que fazia os galhos se moverem. Seria o vento, ou alguma expressão independente da árvore?
"Percebo o que você quer dizer" – eu disse ao meu filho. "O movimento da árvore é muito bonito."
"Você acha que a árvore está dançando?" ele perguntou.
"Por que ela estaria dançando?"
"Talvez esteja contente porque o sol está brilhando" – disse ele.
"Talvez" – respondo.
"Ou porque é primavera" – acrescenta ele – e não faz mais frio."
"Talvez" – digo novamente.
Enquanto estávamos ali observando a árvore, eu também comecei a discernir a dança da árvore, o movimento e o ondular dos seus galhos, notando algumas nuanças que não conseguira ver antes. Parecia haver um certo ritmo no movimento, primeiro forte, depois suave e gentil, então vigoroso novamente, às vezes quase violento.
"As árvores estão vivas?" pergunta meu filho.
"Sim," respondo, "estão vivas."
"Elas sentem as coisas?"
"Não sei" – respondo. "Por que pergunta?"
"Porque esta árvore parece feliz. Uma árvore pode ficar triste ou feliz?"
"O que quer dizer?" pergunto.
"No inverno, as árvores parecem tristes" – disse ele. "Os galhos ficam caídos, e parecem frias e solitárias. Mas agora, com as folhas no lugar, o sol brilhando e os pássaros cantando, ela parece feliz."
"Deixe-me ver" – eu digo.
Olhamos em silêncio. Observo outras árvores e elas, também estão se movendo com o vento, cada qual num ritmo diferente, e pareciam expressar algo singular e único em seu movimento. Nem toda árvore estava dançando.
"Olhe aquele carvalho grande lá longe" – eu digo. "O que acha que ele está sentindo?"
"Ele também está feliz. Mas não está dançando muito. Acho que isso é porque ele é velho, e talvez seus galhos sejam mais duros. Ou talvez não se entusiasme com o sol e a primavera. Já os viu muitas vezes antes e está acostumado."
"Sim" – concordo, sorrindo por dentro.
Dessa vez, eu amei aquela árvore. Ou pelo menos estava sentindo tanto amor, que era impossível excluir a árvore dos meus sentimentos. E comecei a me perguntar se a árvore estava causando aquelas sensações em mim. Ou a árvore seria um simples catalisador, como o vento, que criava uma reação em mim, assim como o vento provocava uma reação na árvore?
"Você acha mesmo que a árvore está dançando?" perguntei ao meu filho.
"Não sei."
"Não sabe?" perguntei, surpreso pela sua súbita incerteza.
"Se ela estivesse dançando, precisaria de música."
"Ah, entendo" – disse eu – "ela precisaria de música."
E então ele disse:
"Mas talvez a música esteja no vento. Talvez o vento toque uma música que só as árvores consigam ouvir."
"Sim, meu filho, talvez o vento toque uma música que só as árvores possam ouvir."
E comecei a sonhar com cientistas com ouvidos e instrumentos para escutar a música do vento.
Meu filho interrompeu meus pensamentos.
"Pai?" disse ele.
"Sim, filho,"
"Não gosto muito da minha professora na escola."
E então conversamos sobre isso durante algum tempo, ali perto da janela. E embora eu não pudesse ter certeza, tive a sensação de que a árvore estava nos observando, e perguntei-me se nós – a árvore, meu filho e eu – partilhávamos a sensação daquele momento.
BY JAY LITVIN
http://www.pt.chabad.org/library/article_cdo/aid/607447/jewish/Janela-do-Meu-Filho.html
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